ARTIGO: CIÊNCIA E RELIGIÃO

Por: Frei Laércio Rodrigues da Cruz, OAR

Qual o homem que nunca olhou para um céu estrelado, essa imensidão aparentemente sem fim e se perguntou sobre a origem do universo, da terra e até mesmo de si próprio? É nessa perspectiva que o mistério da realidade cresce à proporção que o espírito humano se eleva nas culminâncias dos saberes mítico, religioso e científico: porém estes saberes não esgotam a realidade, as dúvidas e os anseios humanos, pois há um enigma no universo: um segredo na realidade, onde o magnum misterium não se desvela por completo.

A humanidade primitiva contentava-se com as explicações míticas para os problemas naturais. A nós modernos, estas respostas parecem simplistas e errôneas. Historicamente, contudo, elas têm uma importância muito grande, porque representam o primeiro esforço da humanidade para explicar as coisas e suas causas. Sob o véu da fantasia, há nessas respostas uma autêntica procura das causas primeiras da criação do mundo e do homem.

A origem do universo inspirou incontáveis mitos no passado e inspira muito a ciência no presente. De fato, todas as culturas relatam de uma forma ou de outra, uma história da criação do mundo e do homem, e a nossa cultura moderna, tão influenciada pela ciência, não é uma exceção. Essa necessidade que temos de explicar “tudo”, não escapa aos cientistas. E, muito do choque, da alta tensão que existe entre a ciência e a religião vem justamente da explicação da origem do universo.

Deus criou o mundo ex nihilo: do nada, sua criação foi a causa inicial da existência material no mundo. Por tanto, apontamos duas visões de criação do mundo: a primeira é da religião e a segunda é da ciência. Ambas pensam diferentes, porém, devem se respeitar, pois se complementam. Acreditamos que a melhor atitude em relação a origem da criação é a de complementaridade: a religião oferece um relato, a ciência por sua vez, outro. É importante aceitar que ambas tem limitações, mas o que não tira em nada o mérito da sua beleza e importância na explicação da origem da criação.

A teologia representa uma busca constante e indefinida do “desconhecido”. Nessa busca constante, o teólogo é aquele que agita os problemas universais da origem e da finalidade do mundo, e a partir dessa agitação, mesmo que nem sempre consiga responder a todos os problemas atuais, ao menos busca compreendê-los à luz da fé.

O teólogo entra em diálogo com o mundo no momento em que entra em dialogo com a ciência, porque não lhe basta somente o campo da aparência e da evidência. O dialogar teologicamente não se agarra as pontas, mas busca os nós ontológicos, desgrudando os níveis para percorrer as dimensões. Por tanto, o verdadeiro teólogo, é antes de tudo um observador atento da realidade, um pensador dedicado, e que pelo seu esforço, busca discernir a criação à luz de Deus, dedicando-se numa reflexão contemplativa e inteligente sobre a criação do mundo e do homem.

A ciência não pode ignorar a teologia. O pensamento teológico é uma ferramenta através da qual buscamos interpretar a realidade. Concebemos a teologia como um fundamento implícito, mas dissociado do objeto da ciência. Assim, todo grande avanço na ciência não somente requer, mas consiste em parte no pensamento teológico através do qual pensamos a realidade.

Nenhuma intuição do mundo é admissível, nenhuma concepção do mundo é viável que não esteja rigorosamente de acordo com o que já foi verificado e aprovado; ou ainda, não podemos imaginar uma concepção teológica séria que não tenha por base uma síntese completa do resultado geral das ciências.

A ciência não pode responder a todos os anseios do homem, e o empirismo, tampouco pode ser aplicado de forma exacerbado na vida do homem. Pensamos que a teologia pode estabelecer uma comunicação entre os diversos segmentos sociais, e continuará gerando novos pensamentos e investigações teológicas, onde essa comunicação exigir-se-á interdisciplinaridade, convidando-a a uma visão mais holística para abordar e responder os desafios do terceiro milênio.