O EVANGELHO DE SÃO MARCOS
Evangelho de São Marcos

INTRODUÇÃO
Diz-se atualmente que o Evangelho de São Marcos foi escrito em Roma, numa época próxima ao martírio de Pedro (ano 64). Antigos escritores da Igreja recordam que Marcos foi companheiro de predicação de Pedro e escreveu o Evangelho depois da morte do apóstolo.

É possível imaginar quais seriam os destinatários de Marcos: um grupo de cristãos em Roma, no meio de perseguições. Eram os cristãos recém-convertidos e logo se encontraram com estas provas sangrentas. Estão conscientes que já veio o Messias, que começou o Reino dos Céus, mas também notam que não há uma intervenção de Deus para salvar a comunidade que se encontra nesta situação. Que perguntas faria esta comunidade de cristãos romanos que se reunia a escutar a predicação e a celebrar a eucaristia! O predicador tinha de dar uma resposta a todas as perguntas. Era tarefa de Marcos apresentar Cristo vivente, morto e ressuscitado, que pudesse responder a estas interrogações.

A comunidade cristã à qual está dirigido o Evangelho, é uma comunidade onde a sua maioria são pagãos convertidos. Por essa razão, Marcos percebe a necessidade de explicar certos costumes ou usos do judaísmo. Marcos não tem a arte literária de Mateus, e lendo o seu Evangelho na língua original, vê-se que escreve o grego com certa dificuldade. Descobrem-se erros gramáticos e usa uma linguagem muito simples, às vezes até vulgar. Evita os discursos (ao contrário de Mateus), mas alonga-se na narração dos factos, com grande vivacidade e cheios de detalhes. No geral, o Evangelho é muito colorido, abundante em narrações e carente em discursos, com muito movimento e contado de maneira simples e calma. O Evangelho de Marcos chega só ao capítulo 16, 8. Os manuscritos mais antigos terminam nesse versículo; os versículos seguintes (16, 9-20) encontram-se só em alguns manuscritos e fazem um resumo daquilo que foi dito nos outros Evangelhos sobre as aparições do Senhor ressuscitado. No entanto, este trecho foi acrescentado por outra pessoa e não pelo próprio autor do Evangelho. A Igreja fez seu este “final de Marcos”, considerando-o parte da Sagrada Escritura. Vê-se que os primeiros cristãos ficavam perplexos perante este final tão abrupto, em que as mulheres fogem aterrorizadas do sepulcro, e por isso acrescentaram estes versículos que apresentam um final diferente. Existiam também outros “finais” para este Evangelho, que se encontram em alguns manuscritos e que se podem ler nas notas de algumas bíblias. No entanto, são “finais” que a Igreja não aceitou como canónicos.

2- PLANO DO EVANGELHO

O Evangelho começa com a predicação de João Batista e termina com a mensagem do anjo no sepulcro vazio. Dentro destes dois extremos, Marcos estrutura o seu material de uma maneira distinta de Mateus.

Inicia o Evangelho com um título: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (1, 1). O relato estende-se até 8, 30. A segunda parte começa, indicando que se inicia algo novo: (Jesus) “Começou, depois, a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito…” (8, 31). O relato estende-se até ao final do livro (16, 8).

A primeira parte (1, 1 – 8, 30) termina com a confissão de Pedro, quando Jesus pergunta: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”, Pedro responde “Tu és o Messias” (8, 29). A segunda parte (8, 31 – 16, 8) termina também com uma confissão. Desta vez é o centurião, um pagão que está ao pé da cruz que, quando Jesus morre, diz: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (15, 39). As duas confissões correspondem aos dois títulos que se dão a Jesus no início do Evangelho: “Jesus, Messias, Filho de Deus” (1, 1). 1ª Confissão: “…Messias” (8, 29); 2ª Confissão “…Filho de Deus” (15, 39).

Toda a obra está enquadrada pelas proclamações de que Jesus é o Filho de Deus: no começo (1, 11) Deus diz (a Jesus): “Tu és o meu Filho muito amado…”; no meio (9, 7) Deus diz (aos homens): “Este é o meu Filho muito amado…”; no fim (15, 39) um homem (o centurião) diz: “Este Homem era Filho de Deus…”.

3 – 1ª Parte: Jesus, o Messias (1, 1 – 8, 30)

Nesta primeira parte, Jesus faz grande quantidade de milagres e exorcismos, provocando a admiração e a adesão das multidões, que pouco a pouco se vai esfriando, dando lugar à incompreensão e à oposição. Chama a atenção com insistência, para que guardem segredo sobre quem é Ele e sobre a realização dos milagres e exorcismos. Tem um desejo muito claro, para que não se faça publicidade, e ainda em casos curiosos, como por exemplo quando manda guardar segredo sobre a ressurreição da filha do chefe da sinagoga (5, 43). Ver-se-á depois a razão da insistência de Marcos neste tema do segredo.

Na cena do baptismo, a voz do céu, dirigindo-se só a Jesus, proclama que Ele é o Filho de Deus (1, 9-11).

O leitor fica já advertido desde a primeira página, que o próprio Deus proclamou Jesus como seu Filho. Mas Marcos mostra que os homens que acompanhavam Jesus não viam mais do que a Sua humanidade e mostra também que Jesus guardava zelosamente em segredo a sua condição divina. À medida que Marcos apresenta Jesus, coloca detalhes que revelam o seu aspecto humano:

1 – Jesus olha com indignação e magoado (3 5)
2 – Pergunta para saber (5, 30-32; 9, 16.21.33; etc.)
3 – Admira-se (6, 6)
4 – Suspira (8, 12)
5 – Indigna-se (10, 14)
6 – Abraça as crianças (10, 16)
7 – Olha com carinho (10, 21)
8 – Tem fome (11, 12)

Jesus aparecia como um homem igual a qualquer outro, mas fazendo coisas extraordinárias, que levantavam interrogações na multidão. E Jesus não respondia, nem permitia que se respondesse a esses interrogadores.

Jesus aparecia como um homem igual a qualquer outro, mas fazendo coisas extraordinárias, que levantavam interrogações na multidão. E Jesus não respondia, nem permitia que se respondesse a esses interrogadores.

Na narração das tentações, Marcos reduz-se a poucas palavras. Omite a menção ao jejum e a descrição das tentações que existe em Mateus e Lucas. Não diz como foi o diálogo com Satanás, quais foram as tentações, nem o que aconteceu. Omitindo isto tudo, diz somente que: “o Espírito impeliu-o para o deserto. E ficou no deserto quarenta dias. Era tentado por Satanás, estava entre as feras e os anjos serviam-no” (1, 12-13). Um personagem que está só, entre os animais, acompanhado pelos anjos e tentado por Satanás, corresponde à imagem de Adão, segundo as narrações populares muito em voga nos tempos que se escrevia o Novo Testamento. Se Mateus, escrevendo para judeus, falou das tentações de Jesus relacionando-as com as que sofreu o povo de Israel no deserto, Marcos, por sua vez, escrevendo para cristãos vindos do paganismo, prefere relacionar as tentações de Jesus com as de Adão: a primeira tentação da Humanidade. Jesus, como o primeiro homem (Adão), sofre a tentação, mas sai vencedor.

Jesus começa a predicar e provoca admiração em todos “porque ensinava como quem tem autoridade, e não como os doutores da lei (escribas)” (1, 22). Os escribas não falavam de própria autoridade, mas sim com a autoridade de outros. Citavam sempre o que tinham dito outros mestres mais antigos. Jesus ensinava sem citar a autoridade de outros mestres, mas mostrava a sua autoridade, porque a palavra realizava o que dizia. Esta manifestação de autoridade provocava uma grande interrogação: “Que é isto? Eis um novo ensinamento, e feito com tal autoridade que até manda aos espíritos malignos e eles obedecem-lhe!” (1, 27).

A multidão não chega a compreender.

Perante a presença de Jesus, os demónios gritavam: “Eu sei quem Tu és: o Santo de Deus”, mas Jesus mandava-os calar (1, 24-25). O mesmo acontece no relato que vem mais adiante: “…mas não deixava falar os demónios, porque sabiam quem Ele era” (1, 34). A autoridade que manifesta diante das pessoas fica bem justificada: pela sua maneira de ensinar e porque mesmo os demónios são expulsos e obrigados a se calarem. No entanto, ninguém sabe qual a origem desta autoridade.

Na passagem da cura do paralítico (2, 1-12), a autoridade de Jesus é posta em causa: Jesus diz que lhe perdoa os pecados e é acusado de blasfémia, porque o único que tem autoridade para perdoar os pecados é Deus. Repete-se então a primeira interrogação perante a presença de Jesus: “quem é este!”. A seguir vem mais uma série de acontecimentos que provocam outras interrogações: Jesus come com os pecadores, não jejua, não observa o descanso obrigatório do dia de sábado e cura o homem da mão paralisada no dia de sábado (2, 15 – 3, 6). Por um lado, viola a Lei, por outro realiza milagres: parecem coisas antagónicas. Isto faz com que as pessoas que o observam se questionem: “Porque faz isto?”; mas Jesus nunca lhes dá resposta, e os interrogantes seguem crescendo.

Deve-se também destacar que aqueles que presenciam os feitos e as palavras de Jesus no princípio se entusiasmam. No entanto, pouco a pouco vão perdendo o entusiasmo, à medida que cresce a agressividade, até terminar com a deliberação de matar o Senhor. No Evangelho de Marcos, até os Apóstolos participam deste clima de incredulidade e inclusive de agressividade contra Jesus:

- Aqueles que presenciam um milagre, juntam-se para matá-lo (3, 6)
- Os seus parentes vão buscá-lo, porque pensam que está fora de si (3, 21)
- Os escribas dizem que está possuído por um demónio (3, 22)
- Os discípulos reprovam-no (4, 39)
- Os discípulos não têm fé (4, 40; 6, 52; 8, 17-21)
- As pessoas troçam de Jesus (5, 40)
- Aqueles que o conhecem escandalizam-se dele (6, 3)

Desta forma, Jesus fica completamente só, no meio da hostilidade crescente por parte das pessoas.

Ao descrever o ministério de Jesus desta forma, Marcos está fazendo ver aos leitores de Roma que a situação que eles vivem já foi vivida anteriormente pelo próprio Jesus. Assim é, que na sua visita a Nazaré, Jesus disse: “Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa”; a passagem continua: “E não pôde fazer ali milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente” (6, 4-6). Neste mesmo contexto, Marcos relata a execução de João Baptista como um prelúdio do que acontecerá a Jesus (6, 17-29).

A primeira parte do Evangelho termina quando Jesus reúne os seus discípulos para lhes fazer uma pergunta: “Quem dizem os homens que Eu sou?” (8, 27). Os discípulos respondem: “João Baptista; outros, Elias; e outros, que és um dos profetas” (8, 28). Mas quando lhes faz a eles a mesma pergunta, Pedro responde: “Tu és o Messias” (8, 29). Então, Jesus “ordenou-lhes que não dissessem isto a ninguém” (8, 30).

Marcos dá por terminada a primeira parte do seu Evangelho, quando um dos seus discípulos confessa o primeiro título dado a Jesus na Introdução: “Jesus é o Messias” (1, 1 e 8, 29). A pergunta acerca de Jesus que se fez nos capítulos anteriores, encontrou uma resposta. Mas Jesus ordena que não se diga nada acerca deste “título”, porque na opinião das pessoas e dos discípulos, o Messias é um rei glorioso; Jesus terá de ensinar progressivamente aos seus discípulos de que maneira é Ele o Messias.

4 – 2ª Parte: Jesus, o Filho de Deus (8, 31 – 16, 8)

Marcos começa a segunda parte dizendo que Jesus “começou a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos-sacerdotes e pelos escribas, e ser morto e ressuscitar depois de três dias” (8, 31). Aqui Marcos acrescenta: “E dizia claramente estas coisas” (8, 32). Sobre este aspecto já não há segredo.

Entra-se num novo tema: a necessidade do sofrimento. Isto explica o porquê do segredo acerca do Messias. Jesus não é um Messias glorioso, mas sofredor. Uma vez que os discípulos chegaram à compreensão que Ele é o Messias, então já lhes pode explicar de que forma vai realizar a sua obra messiânica: através da dor, do sofrimento, da morte e ressurreição.

O primeiro incidente acontece quando Jesus anuncia abertamente o caminho da Paixão. Pedro intervém, repreendendo Jesus. Passagem certamente escandalosa: Pedro sente-se com autoridade para repreender o Senhor; por sua vez, Jesus repreende Pedro com palavras muito duras (8, 32-33). Fica claro o que entendia Pedro por Messias, em relação a Jesus: um Messias que não devia sofrer, por isso, merece a repreensão de Jesus. Nesta oportunidade, Jesus chama as pessoas e os discípulos para lhes falar das condições necessárias para O seguir (8, 34-38). Estas palavras de Jesus não vão dirigidas só aos Doze, mas a todos os homens: “…chamando a multidão e os discípulos, disse-lhes…” (8, 34). É um convite para seguir Jesus, mas para isso, há que carregar a cruz.

Os leitores de todos os tempos, entre os quais estão também os primeiros discípulos de Roma, podem encontrar nestas palavras um sentido para o sofrimento que padecem, pelo facto de terem o nome de “cristãos”.

Na passagem seguinte, Jesus retira-se com alguns dos seus discípulos e manifesta-se, transfigurando-se diante deles. A voz do Pai proclama: “ Este é o meu Filho muito amado…” e acrescenta um imperativo: “Escutai-o” (9, 7). As exigências do Filho (8, 34-38) devem ser escutadas, porque a sua autoridade é confirmada pelo Pai. Ao mesmo tempo, percebe-se que o caminho da cruz de Cristo termina na glória do Pai; aos homens que seguem Jesus por esse caminho, é-lhes concedido participar da mesma glória com Ele.

Depois deste primeiro ensinamento de Jesus sobre a sua Paixão e da proclamação do Pai, no Evangelho de Marcos já não há mais pedidos para guardar segredo: agora fala-se e age-se abertamente. Jesus começa a caminhar até Jerusalém, e durante o caminho, recorda aos discípulos que vai até Jerusalém para padecer (9, 30-32; 10, 32-34). Apesar de Jesus falar e atuar abertamente nestes momentos, os seus discípulos continuam sem compreender e receiam questioná-Lo (9, 32); depois do primeiro anúncio da Paixão (8, 31), Pedro recusa que Jesus tenha de sofrer (8, 32). Depois do segundo anúncio (9, 31), os discípulos desentendem-se e começam a discutir sobre qual deles é o mais importante (9, 33-34). Depois do terceiro anúncio (10, 33-34), Tiago e João pedem o privilégio de sentarem-se à direita e à esquerda de Jesus no Reino (10, 35-37), fazendo com que os outros dez se indignem (10, 41). Marcos aproveita cada um destes momentos, para introduzir ensinamentos de Jesus acerca do verdadeiro “seguimento”. Nos relatos seguintes, que são os que preparam imediatamente a Paixão (e os próprios da Paixão), Marcos acumula sinais contraditórios, para mostrar de uma forma muito dolorosa tudo o que acontece neste processo: Jesus chegou a Jerusalém entrando solenemente, aclamado pelas multidões (11, 1-11). Ao entrar desta maneira, aqueles que o acompanhavam esperariam que Jesus fosse à casa do governador ou a tomar o poder. No entanto, a única coisa que fez foi entrar no templo, olhar ao seu redor e sair (11, 11).

O relato da Paixão, começa indicando que os sumos-sacerdotes e os escribas procuravam Jesus para matá-lo, sem que houvesse alguma sentença prévia (14, 1-2). Em contraposição, uma mulher derrama um perfume muito caro sobre a cabeça de Jesus durante uma ceia (14, 3), o que provoca o protesto dos que estão presentes (14, 4-9). Esta passagem termina de um forma muito dolorosa: “…e Judas espreitava ocasião favorável para o entregar” (14, 10-11). Marcos tem uma forma muito particular de narrar todo este facto: nos outros Evangelhos aparece Judas Iscariotes que entrega Jesus a troco de dinheiro; em Marcos, entrega-O de uma forma totalmente gratuita. Existe uma promessa de dinheiro, uma vez que ele disse que O entregaria, mas não como uma condição para entregá-Lo. Desta forma, Marcos destaca mais a maldade do ato de Judas: não entrega Jesus por avareza, mas sim, como reação perante a cena do perfume.

O relato da última ceia (Instituição da Eucaristia – 14, 22-25) fica enquadrado por duas passagens referentes aos discípulos: o anúncio da traição de Judas (14, 17-21) e o anúncio das negações de Pedro (14, 26-31). Manifesta-se o interesse de Marcos em expor gestos contraditórios: antes descreveu a atitude da mulher com o perfume, precedido pela referência à atitude dos sumo-sacerdotes e escribas, e seguida pela reação de Judas. O mesmo aconteceu na última ceia: a Instituição da Eucaristia, precedida pelo anúncio da traição de Judas e seguido pelo anúncio das negações de Pedro.

Depois da ceia, Jesus vai para o Horto de Getsêmani (14, 32-42), onde interrompe por três vezes a sua oração para procurar a companhia dos seus discípulos, os quais encontra sempre a dormir. Enquanto estes dormem, outro dos Doze vem com os inimigos para prender Jesus (14, 43), e o sinal da traição é um beijo (14, 44-45). Esta sucessão de sinais culmina com as palavras que dirige Jesus àqueles que o vêm prender. Diz-lhes que vêm buscá-lo com paus e espadas, como se fosse um ladrão, quando ele já tinha estado a ensinar no templo e não o detiveram (14, 49-50).

A atitude de Jesus perante o tribunal é muito diferente daquela que observamos durante a narração do Evangelho de Marcos, até este ponto. Como se viu anteriormente, Jesus nunca deu uma resposta quando lhe perguntavam: “Quem és Tu”?; Quando está perante o tribunal, o qual não encontra uma testemunha para condená-lo, Ele mesmo responde e dá o testemunho que O levará à cruz (14, 61-62).

As palavras de Jesus, que se manifesta como o Messias, Filho de Deus, desencadeiam reações negativas: o sumo-sacerdote diz que blasfemou, todos o condenam à morte, alguns cospem-lhe e atingem-no (14, 63-65), e o seu discípulo nega-o (14, 66-72). Perante Pilatos, que lhe pergunta se é o Rei dos judeus, Jesus não responde da maneira clara com que fez diante do sumo-sacerdote, mas de uma maneira ambígua: “Tu o dizes” (15, 2). Desta maneira, deixa a responsabilidade da resposta sobre quem lhe faz a pergunta. “Rei do judeus” tinha um significado diferente, tendo em conta quem o dissesse, Pilatos ou Jesus. Para Pilatos era um revolucionário, enquanto que para Jesus era o título do Messias. Perante as acusações dos sacerdotes, Jesus permanece em silêncio e não se defende (15, 3-5).

No contexto do julgamento diante de Pilatos, produz-se a cena com Barrabás. Depois de dizer que Barrabás pertencia a um grupo de revoltosos, que tinha cometido um homicídio durante a revolta (15, 7), Marcos fala da multidão que foi ao tribunal de Pilatos (15, 8). Não eram pessoas que se interessavam por Jesus, mas sim partidários de Barrabás que vinham pedir a sua libertação. Foi a estas pessoas que Pilatos deu a responsabilidade de decidir quem iria ficar em liberdade e quem iria ser crucificado (15, 12-14). Os sacerdotes acusavam Jesus de revolucionário e incitavam as pessoas para que pedissem a libertação de Barrabás, que era um revolucionário acusado por homicídio. Então Jesus é condenado à morte (15, 15).

No final da passagem do julgamento perante Pilatos, há uma passagem de injúrias por parte dos soldados romanos (15, 16-20), assim como houve outra passagem de injúrias no final do julgamento por parte dos judeus (14, 65): judeus e pagãos injuriam Jesus. Essas injúrias continuam ao pé do Calvário (15, 29-32).

A morte de Jesus está narrada de uma forma muito simples: “Jesus, dando um grande grito, expirou” (15, 37). Jesus morre como qualquer homem torturado, sem nenhum fenómeno extraordinário ao seu redor, como vem descrito no Evangelho de Mateus (Mateus 27, 51-53).
Chega-se à segunda confissão: o centurião romano confessa o segundo título com que Marcos apresenta Jesus na introdução do Evangelho (1, 1), e que por duas vezes foi proclamado pelo Pai (1, 11 e 9, 7): “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (15, 39). Aos seus leitores, Marcos mostra-lhes que o primeiro homem ao qual chegou a fé no Filho de Deus, era um romano (pagão). O centurião fez essa confissão “ao vê-lo expirar assim”, isto é, ao vê-lo sofrer e sem necessidade de nenhum sinal extraordinário.

Os sumos-sacerdotes tinham dito: “O Messias, o Rei de Israel! Desça agora da cruz para nós vermos e acreditarmos” (15, 32). Os que exigiam sinais extraordinários para acreditar, não os obtiveram e não chegaram à fé. Antes, aos fariseus que pediam um sinal (8, 11), Jesus tinha-lhes respondido que não haveria nenhum sinal (8, 12).

O relato do encontro do túmulo vazio é muito sóbrio. As piedosas mulheres vão com perfumes para embalsamar o corpo do Senhor. Não se manifesta nelas nenhum indício de que esperassem a ressurreição, porque levam os perfumes para perpetuar o cadáver de Jesus. Ao receberem a mensagem da ressurreição, em vez de alegrarem-se, enchem-se de temor. O Evangelho de Marcos finaliza sem relatar as aparições do Senhor ressuscitado; só há uma mensagem dada por um mensageiro celestial, e deve-se acreditar na sua palavra.

5- O propósito de Marcos

Ao escrever o seu Evangelho para os fiéis de Roma, Marcos transmitiu o seu ensinamento sobre Jesus: Ele é o Messias e Filho de Deus. Não é como esperavam alguns, o Messias de carácter nacionalista, que vinha estabelecer um reino terrestre, mas sim o Filho de Deus, que salva a humanidade através da Paixão e da Ressurreição.

Aos cristãos de Roma afligidos pelas perseguições, Marcos mostra-lhes um Jesus sofredor, que padecendo as mesmas tribulações, permaneceu fiel até ao fim. Àqueles fiéis que perguntam porque Deus não intervêm de uma maneira extraordinária, Marcos diz-lhes que, para acreditar, não se devem exigir sinais, milagres, aparições, intervenções fantásticas de Deus. Os falsos messias também podem fazer coisas surpreendentes (13, 22). Como o centurião – o primeiro romano a proclamar a fé – há que encontrar a fé no meio do sofrimento. Por isso também omite os relatos das aparições de Jesus ressuscitado. A única coisa que há sobre a Ressurreição é a mensagem do jovem que aparece com uma veste gloriosa no sepulcro, e diz às mulheres que Jesus já não está ali, porque ressuscitou (16, 1-8).

Resumindo, o Evangelho Segundo São Marcos é o Evangelho que anuncia Jesus, o Messias Filho de Deus, que se manifestou como Salvador sofredor, e ao qual se deve acompanhar no seu caminho da cruz, para poder alcançar como Ele, a glória da Ressurreição, sem exigir-lhe milagres para crer.

Capítulo 16, versículos:

9-11 – Aparição a Maria Madalena: João 20, 11-18
12-13 – Aparição aos discípulos de Emaús: Lucas 24, 13-35
14 – Aparição aos Onze: Lucas 24, 36-43; João 20, 19-29
15-18 – Missão dos Apóstolos: Mateus 28, 16-20; Lucas 24, 44-49
19-20 – Ascensão: Lucas 24, 50-53; Atos 1, 4-11

(Tradução do original espanhol, escrito por Luis Heriberto Rivas, Sacerdote da Arquidiocese de Buenos Aires, licenciado em Teologia pela Universidade Católica Argentina e em Sagradas Escrituras pela Comissão Bíblica do Vaticano)

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